"Ai que preguiça..."

[...] Mas cair-nos-iam as faces, si ocultáramos no silêncio, uma curiosidade original deste povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra. [...] Mas si de tal desprezível língua se utilizam na conversação os naturais desta terra, logo que tomam da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino, de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana, no dizer dum panegirista, meigo idioma, que, com imperecível galhardia, se intitula: língua de Camões! [...]" (ANDRADE; 1993. p. 66.)
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quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Educação e O Debate da Maioridade

Na noite de 1 de julho de 2015, com a manobra do presidente da Câmara dos Deputados Federais, houve a aprovação, em primeiro turno (ou seria 2º?), da PEC, não por coincidência, 171. Com isso, as redes sociais estiveram bem atentas a tudo que se passou no Plenário, movimentando o debate e a discussão em relação ao terma, por vezes polêmico. Mas o que me traz aqui é a relação surgida, nesses debates, entre educação e maioridade, na qual há uma forte tendência a se questionar (não que seja inválido questionar) e fazer piada com a educação e sua efetividade para reduzir a violência nas diversas camadas da sociedade, principalmente a violência que envolve a juventude.

O que mais me chamou a atenção a esse aspecto irônico e sarcástico do tema, em que se coloca em xeque o valor transformador da educação, é o fato de muitos desses discursos serem proveniente de professores, educadores. Chega a ser temeroso.

Imagem retirada de postagem no Facebook.

É inegável que os países com os melhores índices sociais investiram intensamente em educação. O Brasil, que até chegou a ir pelo caminho certo, em vez de seguir os passos desses países, passa a seguir na contramão, reduzindo investimento e escanteado o debate.

A discussão, por vezes, segue um viés bastante reducionista, como se pode ver na imagem abaixo:

Imagem retirada de postagem no Facebook.

Educação não se reduz a dar livros ou somente colocar na escola. O indivíduo pode estar na escola, prédio físico, sem receber educação, ou recebê-la de forma deficiente e deturpada. Investir em educação significa proporcionar uma mudança no modelo que temos. É pensar em projetos transformadores, e aplicá-los. Eis alguns aspectos que poderiam ser pensados e repensados: 

1- Quantidade de aluno por sala de aula: hoje as salas estão superlotadas, impossibilitando a acompanhamento individual, a mediação e de trabalhar as deficiências de cada aluno. 
2- Currículo escolar: faz-se necessária sua flexibilização, para então haver a possibilidade de inclusão de disciplinas que ofereçam lazer e cultura, assim como uma mudança nos componentes já existentes, dando prioridade a formação cidadã e crítica; 
3- Aumento do tempo da criança e do jovem na escola com ensino integral: assim, cria-se a capacidade de flexibilizar o currículo; além de fazer com que eles tenham menos tempo envolvidos na violência, muitas vezes de sua própria comunidade.
4- Ofertar um acompanhamento por psicólogos e por assistentes sociais para o jovem e sua família.
5- Valorização dos professores, desde o salário a sua formação, e abertura de concurso, uma vez que não é incomum falar professores no ensino público porque não se faz concurso para preencher as vagas ociosas.

Esses são alguns dentre tantos aspectos a serem pensados. O que não quer dizer que já não o sejam ou que não existam projetos nesses caminhos. Existem, é o caso do Mais Educação do governo federal e de escolas estaduais de PE, que já são integrais. Porém, falta colocá-los no centro da discussão e trocá-los para frente. Aplicar, ver onde pode ser ajustado, investir financeiramente, ter a consciência de que o caminho a ser trilhado tem de ser esse (e é um longo caminho).
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Agora, depois de todo esse papo, vem alguém e diz: mas são marginais, bandidos, que cometeram crimes hediondos, etc., e você está dizendo que eles não devem ser punidos porque não têm consciência do que fazem. São menores infratores, possuem consciência e devem ser punidos. Contudo, puni-los só por punir não nos trará nenhuma solução, acarretará em muitos problemas no futuro. Um ser em formação, em plenas condições de recuperação, não deve ser jogado num sistema prisional que irá apenas ampliar a violência. 

Não sejamos ingênuos a achar que o menor infrator vai ficar preso até o fim da vida. Não, ele não vai. E quando sair, será dez vezes pior do que quando entrou. Por esse e outros motivos, sou contra a redução da maioridade penal. Que ele fique 8, 10 anos em reclusão pelo ECA (caso haja a mudança no estatuto), em casa de especial, mas que seja sob medidas socioeducativas eficientes e acompanhamento de psicólogo e assistente social, e sem nunca lhe negar a educação, pois esta é transformadora, para que então possa voltar à sociedade, preparado para se reinserir nela sem causar danos piores do que quando foi afastado.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O lugar onde melhor se fala Português do Brasil

Tempo desses, não lembro bem, pois abandonei esse "texto" no rascunho, composto apenas de título. Porém, recordo-me bem o que me motivou a escrevê-lo.

Numa aula sobre variações linguísticas, uma aluna fala que "o lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão, professor". Coincidentemente, eu falava sobre os mitos em relação ao português brasileiro, descritos em Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. De imediato, falei que era um mito e que não possuía procedência científica, nem respaldo nos atuais estudos linguísticos.

Não imagino de onde tenha vindo a ideia de que o Maranhão possui o melhor falar do Brasil. Na maior parte das vezes, credita-se "o melhor falar" à região de maior prestígio econômico, mas não é o caso do Maranhão. De toda forma, podemos levantar algumas hipóteses:

1- O Maranhão já foi uma das mais prósperas economias do país.
2- O Maranhão já recebeu muita influência francesa, e o francês já foi a língua "da diplomacia" no século XX, tal como é o inglês nos dias atuais, lançando sobre o falar maranhense certo "status".
2- O Maranhão fica no Nordeste: nesse ponto em específico, a hipótese é que o NE, como primeira região do país, conservou o falar vindo de Portugal no período colonial, principalmente as cidades mais afastadas das capitais.
3- Já houve uma peça publicitária em homenagem ao Maranhão, que inclusive destaca essa questão do falar maranhense.


Anúncio do Guaraná Jesus.

Entretanto, não há, no Brasil e em qualquer outro país de língua lusófona, um falar que seja melhor que outro. Todos são diferentes entre si. Cada falar possui suas preferências em relação ao uso. E cada falar possui maior ou menor prestígio.

Uma pessoa ainda pode argumentar dizendo que o maranhense fala tudo de acordo com a gramática normativa. Bem, nesse caso ele emprega o pretérito mais-que-perfeito na vida cotidiana, não é mesmo? Ou a segunda pessoa do plural? Ou a mesóclise? Ou a expressão "marrapá", correspondente de "mas rapaz", não faz parte do uso maranhense?

Por fim,  reforço: não existem falares melhores que outros. Existem variedades que são mais ou menos prestigiadas, que são usadas nesse ou naquele contexto. E cada falar é único (inclusive o do Maranhão), com suas próprias características, atendendo às necessidades e à realidade de seus falantes.

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Navegando pela internet, encontrei uma atividade sobre o mito 5° que mencionei, realizada no IF da Bahia. Nela, há também o anúncio publicitário supracitado. Bastante interessante:

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Bolsa Família

O Blog do Planalto está com um especial sobre o Bolsa Família. Uma tentativa interessante de quebrar preconceitos e mitos acerca do programa. Eis o link para a postagem sobre o primeiro mito:

http://blog.planalto.gov.br/quebrando-mitos-bolsa-familia-estreia-especial-sobre-boatos-na-rede/trackback/

Vale dar uma conferida, pois a melhor forma de discutir o programa é se mantendo informado sobre ele.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O padrão e o Facebook

Nesses dias alguns usuários do Facebook têm me deixado intrigado. Quem me intriga é aquele que mantém uma relação ímpar com outros tantos usuários, uma relação de exemplo e de exigência e cobrança. Mas sejamos claros com isso: o que me preocupa são os usuários professores e estudantes das licenciaturas.

Procede-se que, não sei se consciente ou inconscientemente, os professores e graduandos andam se afastando cada vez mais do padrão-culto. Também não sei dizer se isso ocorre somente, aqui generalizo, nas redes sociais. Mas verdade seja dita, o padrão passa longe.

Contudo, deve-se perguntar se não estou sendo preconceituoso. Espero que não! Quando me reporto a essa questão do uso da norma-padrão pelos lincencia(n)dos, em especial, no Facebook, volto-me para a relação destes com os seus alunos. Quem hoje não possui pelo menos um aluno em sua rede? 

O problema é que exigimos deles o domínio da norma, mas na hora de interagir com eles através da escrita, lugar o qual recai toda a cobrança, alguns deixam a desejar.  Você, nesse ponto, pode também se questionar: mas não é ambiente virtual? Sim, claro! Não deixo de levar em conta que a escrita na internet é uma faca de dois gumes, sendo o desvio proposital em determinados (muitos) aspectos. É o caso da exclusão das vogais para formar as palavras somente com consoantes. Por exemplo, "contigo" vira "cntg" ou "ctg" na internet, e de "você" surge o "vc", ou o uso de sinais como em "d+". Só lembrando que não são palavras novas, mas maneiras diferentes de grafar uma mesma palavra. Aqui não deixo, também, de levar em conta os enganos na hora da digitação. Ora, quando digitamos, às vezes apertamos um tecla com pouca força, fazendo com que o caractere não saia, ou ainda batemos na tecla vizinha da que pretendíamos.

Ainda sendo ambiente virtual e de escrita mais descontraída, dá para perceber quando não é proposital o desvio. Exemplo, quando um professor (estudante) de história escreve 10 linhas sem uma única vírgula. Quando ainda no texto desse mesmo sujeito encontramos "mais" no lugar de "mas", "cincero" substituindo "sincero", "ler" vira "lê" e "lê" se torna "ler", "cataram" indica futuro e "cantarão" passa a dar ideia de tempo transcorrido. Esses são alguns poucos exemplos do que tenho visto. Que por sinal são os mesmos problemas que vejo nas redações dos meus alunos de 6º ano.

Isso não quer dizer que eles, os professores a que me refiro, não dominam o português. Digo que eles não dominam uma modalidade da língua: a escrita, principalmente a ortografia dessa modalidade. E o pior de tudo, a modalidade mais cobrada aos alunos. Talvez lhe pareça que eu esteja sendo contraditório agora, visto que anteriormente escrevi um texto sobre "erro" de ortografia, no qual afirmo que não se dá para saber a maneira oficial de escrita de todas as palavras. Mantenho minha posição. Entretanto, um professor não dominar a ortografia de muitas palavras, escrever "cincero", achar que "escrever" se escreve "escrevê" ou que "teve aula" seria "tevi aula" é realmente complicado.

Seu aluno está praticando a escrita juntamente com você, professor! Nessa interação, ele se baseia na sua escrita para formar a dele. Então, professor, use pelo menos a vírgula. Faça  nem que seja um vocativo!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Cristo, o Educador

Há algum tempo recebi por e-mail um texto que reflete bastante a situação da educação no Brasil hoje. Abaixo está o texto de que falo, na íntegra, seguido do link para o blog de onde o retirei.


Naquele tempo, Jesus subiu a um monte seguido pela multidão e, sentado sobre uma grande pedra, deixou que os seus discípulos e seguidores se aproximassem. 
Ele os preparava para serem os educadores capazes de transmitir a lição da Boa Nova a todos os homens. Tomando a palavra, disse-lhes:
 - “Em verdade, em verdade vos digo:
 Felizes os pobres de espírito, porque  deles é o reino dos céus.
 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque  serão saciados.
 Felizes os misericordiosos, porque eles...”
 Pedro o interrompeu:
 - Mestre, vamos ter que saber isso de cor?
 André perguntou:
- É pra copiar?
 Filipe lamentou-se:
- Esqueci meu papiro!
 Bartolomeu quis saber:
 - Vai cair na prova?
 João levantou a mão:
 - Posso ir ao banheiro?
 Judas Iscariotes resmungou:
 - O que é que a gente vai ganhar com isso?
 Judas Tadeu defendeu-se:
- Foi o outro Judas que perguntou!
 Tomé questionou:
- Tem uma fórmula pra provar que isso tá certo?
 Tiago Maior indagou:
 - Vai valer nota?

 Tiago Menor reclamou:
- Não ouvi nada, com esse grandão na minha frente.
 Simão Zelote gritou, nervoso:
 - Mas porque é que não dá logo a resposta e pronto!?
  Mateus queixou-se:
 - Eu não entendi nada, ninguém entendeu nada!

 Um dos fariseus, que nunca tinha estado diante de uma multidão nem ensinado  nada a ninguém, tomou a palavra e dirigiu-se a Jesus, dizendo:
 - Isso que o senhor está fazendo é uma aula? Onde está o seu plano de curso e a avaliação diagnóstica? Quais são os objetivos gerais e específicos? Quais são as suas estratégias para recuperação dos conhecimentos prévios?

 Caifás emendou:
- Fez uma programação que inclua os temas transversais e atividades integradoras com outras disciplinas? E os espaços para incluir os parâmetros curriculares gerais? Elaborou os conteúdos conceituais, processuais e atitudinais?
Pilatos, sentado lá no fundão, disse a Jesus:

 - Quero ver as avaliações da primeira, segunda e terceira etapas e reservo-me o direito de, ao final, aumentar as notas dos seus discípulos para que se cumpram as promessas do Imperador de um ensino de qualidade. Nem pensar em números e estatísticas que coloquem em dúvida a eficácia do nosso projeto. E vê lá se não vai reprovar alguém! Lembre-se que você ainda não é professor titular...
 
Moral da história: "Nem Cristo aguentaria ser professor nos dias de hoje" } 
 
Fonte: SuperDaHora

sábado, 16 de julho de 2011

Erro de Português?

Certa vez fui mostrar à diretora de uma escola em que trabalhei um poema produzido por uma aluna da quinta série do ensino fundamental; ao ver o texto, fez uma careta, daquelas quando pisamos em um espinho, e disse "é... mas tem que melhorar o português". Pense! O que vale mais? A produção ou uns meros erros que não são de português? Pois é isso mesmo! O problema é que muito se confunde ortografia com língua, ou melhor dizendo, professores de matemática, história, geografia, os próprios professores de língua portuguesa, pedagogos, médicos, advogados, jornalistas, pais, tios, avós e um imensa lista fazem essa confusão.
A ortografia de uma língua é maneira pela qual se tenta representar convencionalmente os seus sons num papel. A língua, no nosso caso a portuguesa, possui regras de funcionamento (aqui não me refiro à gramática normativa), essas regras se organizam de acordo com as disposições do sistema linguístico e de acordo com os próprios falantes/escreventes, pois estes tem o poder de criar, recriar, modificar e combinar os elementos da língua.
Uma criança quando não escreve algumas palavras conforme a ortografia vigente, não significa que ela não sabe português, e muito menos que não consegue se expressar direito. Eis aí um grande equívoco de quem assim pensa: imagine uma criança de 5 anos de idade, certamente ela ainda não domina a modalidade escrita da língua, no entanto, expressa-se pela fala perfeitamente. Comunica-se em sua língua materna, o que só pode comprovar que ela sabe português tanto quanto qualquer um de nós letrados.
Muitas crianças têm suas produções jogadas no lixo simplesmente porque o professor de língua portuguesa (ou qualquer outro adulto), aquele que deveria incentivar, repreende e escanteia por conta de um preconceito. Mas aí você deve se questionar "e se não o corrigirmos, ele não aprenderá a ortografia aceita". Não falo de não corrigir, mas de não lhe passar uma correção justamente no momento em que ele está mostrando sua produção. A correção é algo que pode ser trabalhado. O professor pode observar as digressões e elaborar atividades em cima delas, a serem trabalhadas noutro momento. Ou, se for corrigir no ato, buscar um jeito que a criança não seja reprimida: elogiar o texto dela, dar valor ao conteúdo ajuda bastante na correção ortográfica. E ela, logicamente, vai se sentir satisfeita por perceber que você se interessa por aquilo que ela tem para te mostrar. Seja lá como se pretenda trabalhar a ortografia, o importante mesmo é incentivar a escrever, pois quanto mais essa criança escrever mais se apodera da ortografia "correta". Ler, escrever; ler, escrever; escrever, ler; escrever, ler; e depois ler, escrever novamente consistem na prática eficaz para a absorção da modalidade escrita da língua, e por sua vez, de sua ortografia oficial.
Eu, honestamente, não sei a ortografia de todas as palavras, e seria um hipócrita se dissesse que todas as vezes que escrevo não tenho uma única dúvida quanto à maneira de grafar alguma palavra. Nesses momentos vou pro dicionário!

sábado, 2 de julho de 2011

Gerundismo é feio

Quem nunca ouviu falar de gerundismo? Ou quem nunca ouviu o outro criticar o telemarketing porque está cheio dos gerundismos? Mas antes de adentrar a “questão gerundista”, deixem-me explicar a causa da escritura dessas linhas.
 
Recentemente ouvi um podcast bastante conhecido no mundo dos blogs (pelo menos penso que seja) quando em um dado momento da gravação o podcaster diz “Nós estaremos avisando...”. Logo em seguida o seu colega o repreende por usar o “gerundismo”. A justificativa para não usar tal estrutura: são dois verbos quando somente um basta. Segundos depois alguém mais ao fundo reclama que “é feio”.
 
Duas coisas: não está errado e tampouco é feio. Não tenho por pretensão tratar do certo e do errado na gramática normativa, mas abordar uma estrutura viva e muito bem usada na língua portuguesa, o gerúndio. Também não tenho interesse em explicar o que é o gerúndio, mas constatar sua existência na língua. E Já que a dúvida dos prescritivistas é se isto ou aquilo está certo ou errado na gramática, restrinjo-me a dizer que, pensando na tradição gramatical, está completamente correto o uso do gerúndio. Basta abrir qualquer gramática, sendo dos conceituados Celso e Cunha, do reconhecido Bechara, ou não, ver-se-á que o gerúndio está lá, entre as formas nominais do verbo.
 
E quanto ao feio? Feio que nada! Mas grandes escritores não ficam por aí de gerundismo, seus mais lindos poemas e romances não têm dessas coisas. “Por ti – as noites eu velei chorando, Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!” Escreveu Álvares de Azevedo em Soneto. Carlos Drummond de Andrade ao ver a amada “caída na areia do circo e o leão que vinha vindo”, deu “um pulo desesperado” e o leão comeu os dois na Balada de Amor Através das Idades. O Dom Casmurro de Machado de Assis deixou claro que a porta que ligava sua casa a de Capitu “abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro”. Provavelmente estes escritores não sabiam quão é feio usar o gerúndio. Não sabiam o português bonito, o português correto! Machado de Assis, fundador da Academia Brasileira de Letras e um dos maiores cânones da literatura brasileira, certamente, deveria ter tido vergonha de escrever tais absurdos. Talvez Drummond merecesse ser preso pelos crimes cometidos contra a língua. Azevedo, no mínimo, não soube chorar nem sorrir.
 
O gerundismo foi/é o neologismo usado para se referir às pessoas que usa(va)m o gerúndio em excesso, principalmente o pessoal do telemarketing com o “vou estar transferindo”. Contudo, o preconceito que girou em torno do termo “gerundismo” acabou por criar a ideia de que o gerúndio é algo errado e inaceitável, ou melhor, criou a ilusão de que gerundismo e gerúndio são simplesmente a mesma coisa. Como já dito, o gerúndio é a forma nominal do verbo que representa uma ação contínua. E o gerundismo é uso desmedido da construção verbo ir conjugado + verbo estar no infinitivo + gerúndio: “Vou estar transferindo sua ligação para o próximo setor, para que o sr. possa estar confirmando os seus dados; e ao término da ligação, o sr. vai estar recebendo o protocolo de nosso atendimento.” Certamente a construção ir+estar+gerúndio tende a soar artificial e a um falso cumprimento do prometido, assim como a repetição excessiva demonstra ausência de domínio ou desconhecimento de outras estruturas. Um outro problema é quando temos uma ação pontual como enviar um e-mail e você simplesmente diz “Vou estar enviando um e-mail ao meu superior.” Esse ato enunciativo seria sintaticamente aceitável, do ponto de vista apenas estrutural (sem entrar na questão se o estrutural é suficiente), mas semanticamente confuso.  Contudo enunciações como “Passei a manhã de domingo cozinhando.”, “Estava estudando para a prova de história.” e “Estaremos avisando nossos ouvintes.” são completamente possíveis tanto do ponto de vista sintático quanto semântico. Elas indicam ações de continuidade e não pontualidade. Por isso não confundir gerúndio com ir+estar+gerúndio, e não sair por aí corrigindo as pessoas pelo simples senso comum ou pelo “achismo”, mero preconceito.

sábado, 20 de novembro de 2010

A avaliação da redação

A redação há muito tem seu foco voltado para o vestibular. Um decreto de 1978 instituiu a redação nos vestibulares do país, fazendo com que a prova se tornasse obrigatória para poder ingressar nas faculdades e universidades brasileiras. O intuito dessa medida era tentar melhorar o ensino de língua portuguesa, pois nos anos de 1970 os meios de comunicação alegavam que o ensino da redação nas escolas era precário. O problema é que muito tempo se passou desde a medida e tanto o ensino quanto as produções de redação são insatisfatórios.
A problemática do ensino de redação nas escolas, principalmente nas escolas públicas do Brasil, apresentam vários entraves para uma melhora significativa na produção textual de seus alunos. Com relação a isso, Jussara Hoffmann diz, citando Graves (1981), que "dentre os fatores que contribuem para a má qualidade das redações dos estudantes" estão "o ensino voltado para a gramática ou ligado a unidades gramaticais e a maior importância à forma e estrutura do que a propósitos e sentidos do texto produzido pelo aluno". De fato, dá-se ênfase nas salas de aulas ao ensino de gramática normativa e pouco se trabalha o texto como uma produção de sentido, esquecendo-se que para se dar sentido ao texto vários fatores atravessam o caminho estabelecido tanto pelo leitor quanto pelo autor.
A avaliação da qualidade da redação do aluno é algo que também preocupa Jussara Huffmann. Primeiro a ela preocupa a complexidade do termo "qualidade": considera importante "evitar simplificações abusivas", "reconhecer expressamente a multidimensionalidade do conceito" e "a validade dos critérios explicitados versus as necessidades educativas de estudantes e instituições". Essa multidimenssionalidade de Huffmann consiste na sensibilidade do avaliador em perceber e levar em consideração aspectos tais como os objetivos educacionais, o contexto dos estudantes (social e cultural) e da escola (comunidade a qual está inserida).
O professor, portanto, para fazer uma avaliação mais adequada da redação pode se utilizar de uma avaliação que contribua para a formação de escritores capazes de todos os recursos possíveis na elaboração de um texto, que se valham de recursos linguísticos e extralinguísticos. O docente deve utilizar o momento da correção da redação para contruir conhecimentos e não com o objetivo de classificar, pois esse tipo de medida pode ocasionar a inibição do aluno.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOFFMANN, Jussara. Avaliando redações: da escola ao vestibular. Porto Alegre: Mediação, 2002.